Vodafone Mexefest: R&B e música portuguesa fazem bem, com certeza. Por: Joana Martins

A Avenida da Liberdade já não anda em correrias como andava há dias. A azáfama agora, é só dos carros que sobem e descem na rotina de sempre. Quem olhasse agora nem saberia dizer que passou aqui um festival.

De horário na mão, e com as pernas quentes prontas a correr a avenida para apanhar o máximo de concertos, lá fui eu.

A primeira paragem do dia 24 foi a IAMDDB. A artista chegou-nos de Manchester, mas as terras portuguesas eram-lhe familiares. Nasceu em Cascais, de nome Diana de Brito, e pisou Lisboa pela última vez com 5 anos.

Apresentou-se simples: ela e o DJ, num palco nu.

Entrou com “Back Again”. Com uma energia contagiante e pôs logo o público à vontade. Foi posando para as fotos, aqui e ali. Intercalava o português com o inglês e conseguia sentir-se a surpresa do público, cada vez que uma frase perfeitamente dita em português saía da sua boca.

“Hey, I’m home baby”, dizia.

Soltou o cabelo. E a pedido do público seguiu com “Lean Out”. O Capitólio não estava completamente cheio. As pessoas estavam soltas, como a IAMDDB.

A “Pause” veio a seguir. O público reagiu euforicamente assim que as primeiras notas se fizeram ouvir.

“Keep it G”, “Pussycat” e “Childsplay” foram alinhando o concerto e realçando a versatilidade da artista. Diana começou a cantarolar “Eles gostam de mim, eles gostam de mim”. O público riu-se. Há uma inocência engraçada em relação a IAMDDB. Apesar da grande maturidade das músicas, parece sempre deslumbrada pelo seu próprio sucesso, numa sensação de quase incredulidade.

“Dripicity” veio acalmar um público eufórico. As luzes que iluminavam o palco eram agora cor-de- rosa, por pedido da artista. Depois da calma voltou a euforia com “Shade”, provavelmente a música mais aguardada da noite. A música levou pessoas ao palco, com danças eufóricas e de telemóvel erguido no ar para recordar aquele momento. Toda a gente no Capitólio estava ali, presente, a sentir a música da IAMDDB. As palavras da letra tombavam pelas bocas do público e dos que agora estavam em palco.

Fechou o espetáculo com a “Trophy” e num clima de êxtase, de não sentir as pernas e nem reparar no frio que já se começava a sentir lá fora.

Washed Out levou uma enchente de gente calma ao Coliseu. Tudo o que iluminava a sala eram as luzes do palco e as imagens que passavam de fundo ao ritmo da batida, numa sincronização perfeita. O batimento cardíaco aumentava, submisso dos ritmos eletrónicos. Estávamos controlados debaixo da música. Os artistas pareciam desaparecer por trás da música e das imagens do palco. Se a certa altura o ecrã mostrava a frase “Take a hit and get lost” os sons e ritmos convidavam-nos e insistiam que ficássemos. Em transições suaves, a música pegava-nos pela mão e guiava-nos para onde ela queria que fôssemos.

Avenida abaixo, Hak Baker preparava-se para atuar.

Vinha descontraído. começou com “Quasar” e fomos logo sugados pelas palavras aceleradas. Pedia para sentirmos as músicas.

Seguiu-se “Misfits”. A luz amarela cegava. As palavras pareciam correr da boca de Hak, contrastando com o ritmo da música.

A sala foi enchendo com o passar das horas, e um burburinho começava a ser ouvido.

Com “Conundrum” fomos transportados para Londres e para uma infância lá vivida. O baixista e o guitarrista descansavam, em cada canto. Nesta era só Hak e a guitarra. O guitarrista mexia no telemóvel enquanto Hak cantava, reforçando a descontração deste espetáculo.

Deu um gole na cerveja e prosseguiu o set. Cantou por Tom, o seu amigo que morreu, sofrido e triste, de pálpebras caídas e de rosto tímido. Até as notas pareciam custar a sair da guitarra.

A música parecia sair-lhe do corpo. Era possível ver as notas rasgarem-lhe a pele e, devagarinho, sussurrar aos ouvidos do público todas as palavras que corriam.

Ermo foi na mesma sala, mas o ambiente agora contrastava com o anterior. De cara tapada, Bernardo e António colocaram-se frente a frente. Em momentos, parecia mesmo estarmos perante uma imagem espelhada, ou a dobrar.

Sem qualquer introdução, começaram “Vem nadar ao mar que enterra”. Com flashs na direção do público, quase ao ritmo psicadélico da música, éramos transportados. A autenticidade de Ermos está em tudo o que fazem, desde a música ao espetáculo. Seguiram a ordem do álbum até à “Circle J”. A inquietude fazia-se sentir nos saltos do vocalista e nas luzes.

A dupla de Braga levou-nos até “Raicevic.als”, “Fa zer vu du”, e “Púrpura Pálido”, sem interrupções. Em transições pensadas e suaves, CTRL +C CTRL+V desdobrava-se à nossa frente.

Uns metros abaixo, a fila para o Vodafone Bus para ver El Señor já ia longa. Entrámos e apertámos para cabermos todos lá dentro.

A “Monday” começou e o autocarro começou a andar. Os corpos tombavam para a esquerda e para a direita nas curvas e a música tocava. “In the Middle” seguiu-se e finalmente “Alvorada Girl”. Ao subir a Avenida olhares curiosos da rua espreitavam para dentro do autocarro para tentar ver quem tocava, e porque é que dançávamos ao som da música.

O baterista suava, o baixista olhava e o vocalista e guitarrista tocava e cantava, com um equilíbrio impressionante. De vez em quando, uns olhares de espanto eram trocados pelo entusiasmo do autocarro. Era a última viagem do dia e a música parecia também estar a acabar, então tocavam como se fosse esgotar a cada nota. “Moment for a pray” fez-se ouvir, os braços subiam, tímidos, sempre com medo de uma travagem brusca que os fizesse cair. A “Another time” transportou-nos para um ano atrás quando a banda concorreu para atuar no Mexefest. O Marquês passou-se ao som de “Dazzled”, “Sunday Best”, e começou a descer-se ao som de “Purple Tea”. O autocarro já parava, mas ainda houve tempo para ouvir “Dragging Smiles”. Embora parados, a música continuava. As pessoas do lado de fora dos vidros embaciados pela música, filmavam e fotografavam. O público dançava e os El Señor faziam aquilo que fazem bem: tocavam e levavam-nos a dias de sol e quentes de verão, que há muito ficaram para trás.

No topo da estação do Rossio as Hinds terminavam o concerto, trazendo um bocadinho mais de sol a todos os que ali tremiam com o frio.

O primeiro concerto do 2º dia foi Cigarettes After Sex. O ecrã mostrava imagens de prédios e de neve a cair que contrastava com a primeira música tocada, “Sunsetz”.

Cigarettes soa a imagens a preto e branco e chá quente. E num sussurro aqueceram todos. As imagens atrás mudavam, entre mulheres de frente, a olhar-nos, como de perfil com uma lágrima no canto do olho. Entre músicas, éramos transportados para dias de chuva, com a água a bater na janela, a lareira quente aos nossos pés e Cigarettes After Sex a tocar de fundo. A serenidade das imagens acompanhava a acalmia da música.

Avenida acima, o concerto de Mahalia estava quase a começar no Cinema São Jorge.

A sala era a Montepio. Era pequena, mas ia enchendo com a hora a chegar.

Charlie, o baixista, entrou. Começou a tocar o baixo e o entusiasmo começou a subir. Em palco apenas a mesa de som, um baixo, uma guitarra e um mic stand.

Mahalia entrou e começou com “Never Change”, a entrada perfeita para pôr o público dentro da sua boa energia e aquecer os corpos frios que ali estavam. A vergonha modesta com que cantava tornava tudo ainda mais quente.

“Proud of Me” seguiu-se. O público parecia relacionar-se com a simplicidade e veracidade das letras.

Depois, “Silly girl”, canção que escreveu com 12 anos, de pijama, sobre uma rapariga da sua escola.

“Independence Day” pôs o público a cantar. Mahalia olhava o público, de vez em quando e sorria, quase incrédula de que aquilo estava a acontecer.

Introduziu “Marry Me” com a explicação de ter sido escrita quando era nova e ser sobre o namorado da altura. Explicou que a cantou em frente a toda a escola e que uns dias depois o namorado acabou com ela.

Não se ouvia nada. Ela sorria ao olhar para a plateia e ao dizer as palavras de Mahalia de 14 anos.

A energia da sala era inexplicável. O público vibrava a cada nota, tom e letra e Mahalia parecia sempre ficar envergonhada e sem palavras. Pareciam enamorados, o público e ela.

“Back up Plan” atingiu-nos com a sua poesia calma e as palavras inquietas da jovem Mahalia que queria cantar e a quem diziam ser um sonho impossível. Ouvi-la confortava os ouvidos. Ninguém falava. O público acompanhava com palmas e a energia era contagiante ao ponto de Mahalia se esquecer um pouco da própria letra.

Depois de uma cover inesperada da “The Weekend” da SZA com a “Cranes in the sky” da Solange, seguiram-se “Hold On”, “Honeymoon” e “Seventeen”. Em “Hold On” dançou e pôs a dançar, em “Honeymoon” abrandou e acalmou, emocionando-se ao ver o público puxar por ela e em “Seventeen” falou-nos de coisas que já todos sentimos, sempre com a mesma calma e simplicidade.

E finalmente, a música tão aguardada do público, “Sober”, o clímax do concerto. Disse ter guardado para o fim, para ninguém sair da sala antes. Como nas outras músicas, explicou aquela. Descreveu-a como a sensação de acordar e cheirar as rosas e estar completamente sóbrio. Toda a gente cantava, toda a gente dançava. Uma onda de euforia encheu a sala. A certa altura chegou-se à frente, e por momentos parecia estar a cantar a olhar para o ex namorado, com a força do corpo e das palavras.

Acabou numa nota de amor aos que ali a viam e acrescentou ainda, emocionada: “É por isso que eu faço isto”.

Para mim, o melhor concerto do festival. Mahalia soa a realidade, sem artifícios ou personagens. O que ela é, é-o em palco, nas melodias, nas letras e é impossível não nos revermos em todos eles.

O concerto da Mahalia ainda se fazia sentir no corpo e ainda faltavam algumas corridas na avenida.

Dei um saltinho a Everything Everything para ouvir Regretz, numa sala lotada e vibrante.

Sevdaliza enchia as ruas até o Cinema São Jorge e no coliseu Moullinex preparava-se para fechar a noite.

Num shot de adrenalina, Moullinex apresentou Hypersex. Um green screen à esquerda do palco, onde Ghettoven dançava em direto e as imagens apareciam atrás da banda, levava o público à loucura. O espetáculo estava pensado ao pormenor para levantar a energia e o pó do Coliseu dos Recreios. De “Deja Vu” a “Superman”, corpos dançantes cantavam e vibravam com as músicas. “Undertaker” foi gritado a plenos pulmões por todos os que ali estavam. A energia era contagiante. Era impossível ver alguém parado quando os ouvidos estavam a ser invadidos por aquilo.

Da Chick e Best Youth ajudaram na festa trazidos por Luís Clara Gomes, da sua Discotexas. Da chick com o seu soul habitual puxava pelo público, dançava e corria. Best youth com a sua calma, e química trouxeram sensualidade ao palco. Do início ao fim um espetáculo cheio de energia, funk, soul e acima de tudo música boa a ser produzida em Portugal. Não havia melhor maneira de fechar esta edição do Vodafone Mexefest, do que mexer ao som de Moullinex.

Conhece a reportagem fotográfica completa em: http://bit.ly/Mexefest2018

Texto: Joana Martins;
Fotos: Inês Machado;
Vídeo: Rúben Fajardo;

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