“365 Dias, 10 Escolhas” por João Rodrigo. (Parte 1)

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Estamos perante o fim de mais um ano, 2014 já lá vai e tanta coisa nos deixou para analisarmos em termos musicais. Foi essencialmente um ano de grandes contrastes, de grandes álbuns, de grandes regressos, enormes revelações e de artistas que se tornaram confirmações no panorama musical, mas também de regressos bastante desoladores, artistas que não conseguiram demonstrar a sua qualidade nos seus projetos.

Numa altura em que as pessoas estão cansadas de ouvir sempre as mesmas coisas, destaca-se essencialmente a criatividade, a inovação, a genialidade sem nunca pôr parte a qualidade, que é um critério bem menos consensual. Contudo as pessoas acham que tudo o que surge e seja diferente é excelente, e que utilizam sempre aquele argumento quando ouvem uma critica,”Ah tu é que não estás habituado…”,”É como a Coca–Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se”… Mas não. Cada vez surgem mais projectos, sem qualidade, que assumem um destaque apenas por serem consumidos por pessoas sem opinião musical pessoal. Nem tudo o que a crítica diz que é bom, as pessoas têm que gostar. Sejam independentes. Tentem perceber os defeitos e as qualidades de álbuns, artistas, musicas… É na diversidade de gostos e pensamentos que reside a beleza desta industria e motiva artistas a inovarem, umas vezes melhor que outras. Mas temos que saudar sempre o facto de inovarem porque ouvir sempre as mesmas coisas enjoa.

Depois de desabafar um bocado aquilo que me vai na alma, vou vos deixar a minha opinião pessoal sobre o tema principal deste texto, quais os melhores álbuns de 2014. A minha escolha é diversificada, mas é normal detetarem algumas preferências por certos estilos musicais, mas acho normal, não me consigo manter assim tão imparcial ao não selecionar álbuns que me puseram a ouvi-los em modo “repeat” durante este ano.

Começo por destacar um álbum que coloco no meu top-3 dos melhores álbuns deste ano, de seu nome “2014 Forest Hills Drive”, do rapper Jermaine Lamarr Cole. Começou a sua carreira essencialmente em 2007 com o lançamento da sua primeira mixtape, mas apenas ganhou “nome” no mundo do Hip Hop quando assinou pela editora de uma das pessoas mais respeitadas do mundo musical, Jay Z. O seu primeiro álbum apenas saiu em 2011 com o patrocínio da editora de Jay Z e logo atingiu vendas bastante consideráveis nos EUA, para um artista que era inicialmente desconhecido para a maioria da população fora do mundo do Hip Hop e do Rap. Com este álbum alcançou mesmo a primeira posição na Billboard 200, acabando mesmo por ter umas vendas estimáveis em 500 000 mil cópias. O seu segundo álbum surgiu depois em 2013, lançando primeiramente um single inicial que contava com a colaboração do cantor Miguel. As vendas superaram as do álbum anterior e alcançou como este, a primeira posição na Billboard 200. Este contava com participações de artistas do calibre de Kendrick Lamar, 50 Cent e do próprio Miguel. Contando com um subida repentina ao topo da industria do Hip Hop e do Rap, J.Cole decidiu brindar-nos com uma obra prima, passado um ano do seu ultimo álbum, “2014 Forest Hills Drive”, lançado no mês em que nos encontramos hoje, foi sem duvida para mim uma grande surpresa, pois não acompanhava atentamente as obras do artista e captou em mim uma atenção extra para o resto da sua longa carreira. Este álbum tem a particularidade de ter sido produzido pelo próprio rapper, contando com a colaboração de outros produtores, estreando-se na produção de álbuns, o que nos leva a dizer, “J.Cole faz tudo sozinho”. O álbum retrata na sua maioria o caminho do rapper até ao seu objetivo desde a sua infância, até aos dias de hoje, assim como valores com o respeito, o amor, a amizade e a união. J.Cole, começou por lançar um anúncio de que iria lançar o álbum e um vídeo do making-of do álbum. Lançou posteriormente dois singles do álbum, “Apparently” e “GOMD”. Um álbum puro, simples, em que a magia está na simplicidade, na rima, no facto de ser um álbum tão pessoal que transmite uma mensagem diferente da maioria dos álbuns que retratam a massificação e a generalidade.

jcole

Com este álbum, J.Cole bateu todos os seus números anteriores, vendendo 371 mil cópias numa semana, alcançando novamente o primeiro lugar na Billboard 200. Bateu também o recorde, relativo do Spotify, tendo sido transmitido 15,7 milhões de vezes na primeira semana batendo o recorde de One Direction. Claramente um dos álbuns do ano.

bkOutro dos meus destaques do ano, vai para o mais recente trabalho da banda Black Keys, intitulado “Turn Blue”, não sendo novidade para ninguém a qualidade de Dan Auerbach e Patrick Carney, este álbum surgiu como uma lufada de ar fresco na já considerável carreira do “dueto maravilha”. Após o seu último álbum,”El Camino”, venerado pela crítica como um dos melhores álbuns de rock, não era fácil, para banda fazer um trabalho que fosse sequer comparável ao seu antecessor, no entanto a banda mostrou toda a sua qualidade com o lançamento deste trabalho que apesar de menos divulgado, emana qualidade por todos os lados. Um rock diferente, dançável mas ao mesmo tempo mais instrumentalizado e melancólico, deixou os fãs da banda agradados com a surpresa. Um álbum para ser apreciado em vários momentos, numa saída com amigos, como uma tarde com a namorada, ou para se ouvir numa viagem de carro longa e maçuda. Extremamente recomendável, o dueto de Ohio não desiludiu e leva-nos a perguntar, será que alguma vez nos vai desiludir?

O meu próximo destaque, é bastante curioso, vai para a banda londrina Jungle para o seu novo trabalhojungle denominado com o mesmo nome da banda. Esta banda tem um percurso curioso, pois este álbum é o seu álbum de estreia! Não é fácil uma banda estrear-se e fazer logo um dos melhores álbuns do ano mas eles se quiserem a receita perguntem a esta numerosa banda de 7 elementos que desenvolveram um género musical completamente inovador, um soul moderno, com ritmos dançáveis e descontraídos, um funk com sons psicadélicos, algo indescritível mas ótimo para os nossos ouvidos. Uma das músicas, que faz parte deste álbum, “Busy Earnin” ficou em 12º lugar das 50 melhores músicas selecionadas pela NME do ano 2014. O single “The Heat” lançado em 2013 e que também está presente no álbum foi nomeado para o prémio BBC´s Sound of 2014. O álbum era também um dos nomeados para o prémio Mercury de 2014 Apesar da curta carreira a banda já atuou em alguns dos mais conceituados festivais do mundo como o Glastonbury, Itunes Festival e ao lado de artistas como Pharrell Williams. Destaco também os videoclips das músicas da banda, bastante originais. Uma coisa é certa, Jungle já que começaram agora continuem…

Voltando ao Hip Hop, destaco outro dos álbuns que mais me encheu as medidas em 2014, do rapper americano Big K.R.I.T, “Cadillactica”.O álbum foi produzido pela Def Jam Recordings, sendo a maioria das faixas também produzida por si e conta, ainda, com a participação de artistas como ASAP Ferg, E-40, Devin the Dude ou Wiz Khalifa.

Este é o segundo álbum do rapper, todos os outros trabalhos consistiam em mixtapes, começo a sua curta carreira abrindo sobretudo os concertos de outros rappers de nomeada, mas há uns tempos até agora, tem subindo na carreira a passo e passo, sendo um dos mais aclamados rappers da nova geração e um dos mais destacados da zona Sul dos EUA. É sobretudo um álbum moderno, com um Hip Hop mais pesado, com presença de beats mais underground, onde aparece Big K.R.I.T como é hábito sem papas na língua, utilizando uma das suas melhores qualidades a capacidade de rimar e de contar historias sem duvida um álbum à imagem do rapper. Um álbum que nos conduz a uma viagem por dentro do mesmo, que nos leva a começar o álbum e só descansar quando o acabamos. Acutilante, entusiasmante. “Caillactica um álbum para ouvir com bastante atenção”, Big K.R.I.T um dos melhores rappers da nova geração sem dúvida, a não perder de vista.

mac de marco

Diretamente do Canadá, com um pop bem psicadélico ao seu estilo, o sempre polémico Mac DeMarco, apresenta-nos o seu “Salad Days” o segundo longo trabalho do artista e que veio confirmar todo o potencial que já se lhe apontava desde o seu surgimento. O seu estilo? Diferente, totalmente diferente. Gravado no apartamento de DeMarco, transmite um estado de espírito muito bem caracterizado com as suas melodias, uma mistura de acalmia, com frustração, com uma pitada de esperança e descontentamento. Talvez seja a receita para este belíssimo álbum que veio suceder um álbum de 2012, e que veio acentuar uma clara marca no estilo musical do artista. DeMarco começou por lançar 3 singles do álbum, “Treat Her Better”, “Salad Days” e “Let Her Go”. Por ser diferente e bom e não apenas diferente merece a minha distinção, para o meu top 10 de álbuns do ano.

Com o seu terceiro álbum, SchoolBoy Q entra para esta lista com um aclamado, “Oxymoron” que veio consolidar a posição do rapper no panorama musical, deixando para trás uma posição de figura secundária assumindo agora um papel tão importante como as grandes figuras do mundo do Hip Hop. Pertencente ao chamado rap da nova escola ou nova geração SchoolBoy Q veio com um álbum produzido por grandes nomes da industria musical, não só da sua produtora Top Dawg Enterteinement, como Pharrell, The Alchemist ou Boi 1-da. Contou com as colaborações de nomes como Jay Rock, ASAP Rocky, Kendrick Lamar, 2 Chainz ou Tyler the Creator. O álbum assenta sobre 5 musicas essencialmente “Collard Greens”, “Man of the Year”, “Break the Bank”, “Studio”, “Hell of a Night”, mas o single promocional foi mesmo a musica “ Yay ,Yay”.

A designação do seu álbum provém do facto de SchoolBoy Q ter sido traficante de OxyContin e ter um passado criminal com o objetivo de sustentar a sua filha daí o paradoxo, sendo essa a razão da capa do álbum ter uma representação da sua filha.

oxyAuto intitulando-se um rapper gangsta, SchoolBoyQ traz um álbum pesado, com temas controversos focado sobretudo na ilegalidade, mas que conseguiu uma opinião unanime, isto é verdadeiro Rap, numa altura em que o gangsta rap é uma miragem na indústria musical, saúda-se o reaparecimento de um rap mais pesado. Um grande trabalho de produção de todos os envolvidos, sendo a qualidade de SchoolBoy Q a cereja em cima do bolo. Um grande candidato a álbum do ano. Nada que não fosse de esperar com o lançamento dos singles que criou uma imensa expectativa em todos os apreciadores de música e em especial deste género musical e realmente não defraudou as expectativas. Nomeado para melhor álbum do ano pela 2014 BET Hip Hop Awards e nomeado para melhor álbum rap da cerimónia dos Grammys Awards 2015.

PARTE 2 (https://buzztv.pt/365-dias-10-escolhas-pt-2/)

Texto: João Rodrigo

Equipa

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