Aminé: o primo do sol brilhou em Londres.


O despertador tocou pouco depois das 2h. Tinha-me deitado duas horas antes. Ainda me faltava verificar tudo. A tinta do marcador com que pintei o cartaz da noite anterior cobria-me os dedos. O meu voo estava marcado para as 6h. Só levava uma mochila preta com o cartaz dobrado em dois, o pijama, uma muda de roupa, produtos de higiene, um caderno e snacks. Os bilhetes de autocarro do aeroporto para Londres estavam já na aplicação.

Era a minha terceira vez em Londres mas a minha primeira vez lá sozinha e naquele lugar. 

Quando me aproximei do hotel, um grande autocarro já estava parado em frente à O2 Shepherd’s Bush Empire e um círculo de cadeiras de campismo com algumas raparigas já se encontrava à porta. Eu sabia que ia ter de ir mais cedo para lá. 

Pousei as minhas coisas no hotel, meti uma água e dois croissants ao bolso e fui para a fila. Faltavam 4 horas para as portas abrirem. O tempo foi arrastando-se entre conversas com raparigas na fila, com explicações do cartaz, e do porquê de ter decidido vir de Portugal até ali só para o ver.

As portas abriram. Uma correria para tentar ficar o mais próxima do palco possível. Consegui ficar na quarta fila, mesmo no centro. Não era ideal, mas era bom suficiente. Os Places + Faces entraram. Entre Trap e Hip Hop, fui sendo levada e a minha ansiedade disparou. Deixei de conseguir respirar e fui puxando-me para o lado esquerdo da barreira. O sítio era pior, não via tão bem, mas ainda estava perto. 

A ansiedade melhorou quando o Madison entrou em palco. Aqueceu um bocado o público e de repente Rickey Thompson dá-nos as boas vindas numa projeção no pano de fundo do palco. Toda a gente ali sabia o que aquilo significava. “Sad on your motherf*cking bday” é dito e Aminé apareceu. A Dr.Whoever começou e o público não podia estar mais satisfeito com esta abertura.

Aminé enamorou-nos durante todo o concerto como um romance de verão. Disse-nos e fez-nos repetir que éramos bonitos, sempre que tinha oportunidade, mas deixou-nos de coração partido por sabermos que eventualmente o concerto ia acabar e cada um ia seguir o seu caminho.

As imagens projetadas no fundo foram mudando conforme as músicas. Desde um ecrã azul com bananas a flutuar, a um ecrã que dizia Lover Boy, ou When I die tell pantone to name a yellow after me. Conforme a música um visual diferente. Aminé McFly é isto e não esperava outra coisa. O Aminé preocupa-se tanto com o aspeto visual da sua música como com a sonoridade e letras. Ele não deixa que a música fale por si, ele guia-nos e percebe a importância da simbiose entre o visual e o sonoro, porque um não vive sem o outro. Se em Cantu a nossa imaginação leva-nos até imagens do Aminé a abanar a cabeça de um lado para o outro, Aminé guia-nos até Solange e ao vídeo dela do “Don’t touch my hair” e é tudo o que podemos querer.

O meu cartaz foi abanando de música para música na esperança que do palco ele conseguisse ver o trabalho que ainda me marcava a mão. Fui trocando de mãos entre canções porque o braço ia ficando cansado.

Surpreendeu com Heebeejeebies, Chingy, Shine, Sugarparents e ainda com uma pequena cantoria e projeção da Wanna Be das Spice Girls. Sentou-se na Together e cantou-nos sobre o amor e desamor que passou.

Pediu para abrir o mosh pit, e a Reel It In fez o chão estremecer. Mas foi em Spice Girls e Caroline que o público se fez ouvir mais, com a repetição de “British Girl // got a show in London” três vezes. 

Apresentou-se com as tour pants, com os emblemas de cada cidade em que atuou, onde uma fã subiu e assinou durante o concerto. Tinha o cabelo preso em cada lado e com duas rastas soltas na da parte de trás da cabeça, que baloiçavam a cada salto e dança que fazia em cima do palco. Trazia um olho pintado de sombra laranja, um colete esverdeado e uma t-shirt branca. Do lado esquerdo o famoso microfone amarelo que utilizava em algumas músicas. 

Mas as surpresas não ficavam por ali, trouxe AJ Tracey ao palco. O rapper londrino apareceu e o público ferveu.

Quando vamos sozinhos a concertos, a certa altura esquecemo-nos que estamos sozinhos. Um mar de gente à nossa volta, a berrar as mesmas letras, a sentir a mesma coisa, faz-nos esquecer. Conhecemos sempre pessoas, pessoas com quem temos uma ligação instantânea por ouvirem a mesma música que nós. Mas há também um lado bonito e romântico em irmos sozinhos. O Aminé não só é o meu artista favorito de momento como é aquele que já quero ver ao vivo há dois anos. Quando os bilhetes foram postos à venda eu tinha um alarme no telemóvel para comprar assim que saíssem. Eram 20 libras. Não podia deixar de o ver por 20 libras.

Na altura parecia lógico, mas à medida que a data se aproximava os nervos aumentavam. Eu ia sozinha. Sozinha. Quando lá cheguei, quando o vi, o medo deu lugar a orgulho e entusiasmo. Eu sabia que aquele momento era só meu e era um dos que me ia recordar mesmo quando a memória começasse a escapar-me por entre os dedos. Aquele momento ia ser uma história para contar a qualquer tipo de descendência que venha a ter no futuro.

Por ter ido sozinha, era uma memória só minha e não há ninguém que a possa alterar ou arruinar, eu tenho controlo total sobre ela e isso para mim é poderoso. 

Gostava de conseguir capturar em palavras a sensação de fazer alguma coisa que pensávamos não conseguir. É como se de repente o mundo como o conhecemos mudasse, a nossa perspetiva muda. De repente há uma coisa que nós sabemos e mais ninguém sabe, como um poder secreto, como se aos poucos estivéssemos a decifrar o código para viver aqui.

Texto: Joana Martins

Equipa

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