Cage The Elephant: “O Elefante que não pode ser domado”.

A fila já estava longa e inquieta quando cheguei. Eram por volta das seis e um quarto e Manchester já escurecia. É das primeiras tours da banda em Inglaterra e consegue-se sentir a ansiedade de quem esperava para entrar.

Vi os Cage The Elephant há dois anos atrás, no Paredes de Coura, mas também estava como eles. O novo álbum abriu o apetite e elevou expectativas.

Chrome Pony, originária de Nashville, aqueceu o público que estava rijo e frio com ritmos de cru indie rock. A banda liderada por Tyler Davis (na guitarra e no microfone) foi um bom começo de noite.

Mas a ansiedade acumulava-se no corpo. Era quase possível ouvir o batimento dos corações de todos ali de pé.

Ali estavam eles. O público entrou em histerismo.

Cry Baby, a primeira música do Tell Me I’m Pretty, fez-se ouvir. Mas foi na segunda música, In One Ear, que uma corrente de pessoas voou para a frente do palco e o chão estremeceu. A música do álbum Cage The Elephant trouxe à memória as antigas músicas da banda que os fãs de longa data há muito esperavam ouvir ao vivo.

Spiderhead, Take It or Leave It e Aberdeen seguiram-se, não deixando o público descansar da injeção de adrenalina. Saltos, cotoveladas e suor por todo o lado.

Destacaram-se, a seguir, duas músicas do novo álbum e das mais famosas do mesmo: Sweet Little Jean e Trouble; as quais Matt Shultz não desiludiu em cantar na perfeição. Sweer Little Jean trouxe amor ao público e Trouble acalmou-o e uniu–o em uníssono para ajudar a cantar a música.

Telescope, It’s Just Forever e Come a Little Closer também se fizeram ouvir e foram recebidas com gritos, sorrisos, e letras caídas em cada boca.

Depois de dezoito músicas e com a hora a tardar, o sentimento de despedida apoderou-se de todos. Os Cage The Elephant abandonaram o palco, mas nem por isso houve alguém que tivesse abandonado o seu lugar. Toda a gente se encontrava de pé na esperança que fizessem o que é normal fazer-se: encore. A sala uniu vozes e “One more” foi gritado com a máxima força.

Voltaram. Matt tirou a camisa (e quem conhece a banda sabe que isto é sempre sinal de que algo de bom está para vir).

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A banda presenteou-nos com Cigarette Daydreams e os corações uniram-se naquela que para mim é das mais bonitas músicas do Melophobia. Para acabar em grande seguiram-se Shake Me Down e Sabertooth Tiger, uma ultima injeção de energia antes do adeus, uma espécie de presente de despedida para nunca nos esquecermos o que Cage The Elephant significa. O tão esperado crowd surfing surgiu também ele no encore. Matt e Brad Shultz deitaram-se nas mãos do público e deixaram-se levar. O público abraçou-os e acarinhou-os em histeria. Um adeus eletrizante que nos drogou.

Um concerto com uma setlist extremamente bem construída, entre o Tell Me I’m pretty, Melophobia, Thank you Happy Birthday e Cage the Elephant os desejos de todos os que ali estavam viram-se satisfeitos.

A verdade é que esperava outra coisa. Ao vê-los pela primeira vez no Paredes de Coura, com uma energia heroica e uma intensidade louvável, pensei serem efeitos daquele festival, do ambiente e do público. Com este concerto cheguei à conclusão precisamente do contrário: a energia do público foi um resultado da banda. Apesar de em ambientes completamente diferentes, os níveis de energia contagiantes e infeciosos foram os mesmos aos que assisti em Portugal. O público era diferente, sim, mas a verdade é que Cage The Elephant conseguia aquecer até o público mais rígido. Mostraram-se, mais uma vez, enormes.

Ninguém conseguiu ficar indiferente. Os corpos moviam-se involuntariamente.

Uma banda que vi duas vezes e veria muitas mais porque é exatamente o que um fã procura numa banda ao vivo: uma banda que cria expectativas e sabe concretizá-las e nos deixa na vertigem da emoção pelo fim estar próximo. Uma banda que transpira. Uma banda que entra e sai de nós, que nos escraviza e nós deixamos porque era exatamente o que queríamos.

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Uma banda que provavelmente gravou na minha memória um dos melhores concertos deste ano e a qual aconselho vivamente toda a gente a ver. Uma banda que nos faz questionar se alguma vez o Elefante conseguiria ser domado, mas que nos deixa afirmar que somos sempre domados por ele.

Texto: Joana Martins
Fotos: Joseph Stanton

Equipa

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