“Deixem O João Falar” – Chamem-me doido.

Deixem o João Falar

Provavelmente vivemos uma das alturas mais estranhas e esquisitas no que à música diz respeito. Nunca se investiu tanta na divulgação das músicas, nunca se gastou tanto dinheiro na produção dos temas, nunca existiu tanta diversidade de géneros musicais, de ritmos e tons, nunca se utilizou tanta tecnologia para a confeção de temas musicais….Com estes factos, só um doido para dizer que vivemos uma crise musical. Chamem-me doido.

Segundo a ordem natural das coisas, tudo isto deveria conduzir a uma evolução da arte musical, mas apenas se verifica uma evolução do negócio da música. Cada vez mais as pessoas têm um gosto menos diversificado, menos sofisticado, tudo isto se verifica quando a quantidade artistas musicais de qualidade é cada vez maior. Um pouco estranho ou não? Nada que se estranhe vindo da raça humana. Todos sabemos que o mundo vive de modas, é uma realidade que temos que enfrentar no nosso dia-a-dia, já vivemos influenciados com modas internacionais que perduraram tempos e tempos, como o Jazz e os Blues numa primeira fase, seguidamente o Rock, até aos ritmos latinos e eletrónicos, assim como os africanos e tantos outros que dominaram a indústria musical.

Ora pois bem, em Portugal sempre se seguiu as modas internacionais, mas parece que o panorama está a mudar e apesar de tudo parecer bom, na minha opinião é uma evolução ilusória. Deixa-se de seguir o que era moda, principalmente nas grandes potências e nos países mais desenvolvidos e passa-se a criar as próprias modas. Lembro-me quando era ainda mais jovem, de a música latina ser uma constante em todas as partes do nosso país, aquela fase modernista dos anos 2000, em que os artistas começam a apostar cada vez mais na imagem e menos na música e começam a surgir cada vez mais em Portugal as boys bands e os ritmos do caribe, transmitindo uma ideia caribenha do nosso país,completmanete diferente da nossa essência,costumes,cultura e tradições. Em todos os bares,concertos,discotecas marcavam presença em massa atuações de pessoas vindas da América Latina, que aproveitando o nicho, decidiram aproveitar para fazer o seu pé-de-meia, sabendo de antemão que o seu momento de protagonismo acabaria brevemente e assim foi. Segue-se a música brasileira e a fase em que acrescentar “chi” a uma música era sinónimo de histerismo entre o público e sucesso nas vendas, assistiu-se a uma vaga de cantores brasileiros completamente assustadora, sertanejo, samba, pagode, funk dominaram os géneros musicais e mais uma vez aproveitando a moda, todos amealharam á conta desta “fase brasileira” da nossa nação. Os ritmos latinos assim como as boys bands passaram á história, vivendo tempos de grande dificuldade, obrigando-os na procura de novas soluções de sobrevivência. A música brasileira estava na berra e qualquer músico exigia condições e cachets estapafúrdios, tal era a inflação deste género musical no nosso país. E adivinhem qual foi o destino de todos os artistas brasileiros de ocasião? Uma descida á terra dos comuns dos mortais e o regresso às suas antigas vidas.

Agora, com mais alguns anos de vida e outra visão das coisas, surgem como modas o Kizomba e outros géneros africanos, e mais uma vez a história repete-se, os já “clássicos” artistas de uma música que pedem milhares de euros por atuação, para cantarem no máximo umas 4 músicas, sendo o seu “hit” cantado uma dúzia de vezes. Eu pergunto, onde está a noção? O que aconteceu á música? Tendo vários exemplos a longo da história de artistas que caíram num poço sem fundo pelas escolhas que fizeram, porque é que insistem em cometer os mesmos erros? Eu acredito que haja bons cantores de Kizomba e de outros géneros musicais por mim referidos, mas a imagem que passam não é boa, a menos que estejam excessivamente embriagados ou tenham menos 14 anos. No outro dia tive oportunidade de ir a um estabelecimento bastante conhecido e prestigiado, a uma festa de um canal televisivo dedicado á musica, ou pelo menos assim já o foi e uma das atuações era do cantor C4 Pedro, confesso que a minha vontade de assistir ao espetáculo não era muita, por não ser propriamente fã do estilo musical, mas sempre ouvi dizer “Uma vez a Cascais, para nunca mais “ e a curiosidade tomou conta de mim, enchi-me de coragem e decidi dar uma oportunidade e é então que oiço o artista a cantar primeiro um tema com a ajuda do publico, sendo que o artista apenas começava por cantar o inicio dos versos, em seguida cantou o seu novo hit “Vamos ficar por aqui” e deu por encerrada o espetáculo. É assim que querem conquistar o respeito dos ouvintes, do público? Recentemente pudemos observar o caso do concerto de Foo Fighters na Suécia em que o vocalista Dave Grohl apesar de partir a perna volta para a atuação de perna esticada, ligada e acompanhado com paramédico para acabar a sua atuação. Durante o tempo da atuação ele está ali para as pessoas, pelas pessoas, sendo a sua própria saúde secundária. Dois casos opostos. De um lado um artista que transmite uma imagem de simpatia, letras calmas,românticas,do outro uma banda de rock, sem maneiras, mal comportada, com maus hábitos. O que os diferencia? O respeito pelas pessoas, pela música. São atitudes como as de Dave Grohl que me fazem ter esperança na música, nos artistas e me transmitem a felicidade de saber que ainda há pessoas a fazer música por gosto.

Hasta,

João Rodrigo

Equipa

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