“Já não se fazem Festivais como antigamente…” por João Rodrigo

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Já não se fazem festivais como antigamente… Portugal, aproximadamente 10,5 milhões de pessoas. Estados Unidos da América, aproximadamente 319 milhões de pessoas. Muitos de vocês devem estar a perguntar-se, o porquê desta comparação tão ridícula de população entre dois países de dimensões tão diferentes. Acertei? Provavelmente. Mas então, façamos uma questão mais pertinente, por acaso o leitor sabe quantos festivais de música se realizam em Portugal? E quantos se realizam nos Estados Unidos? Será assim uma comparação tão absurda? Se calhar não…

 Em 2014, contabilizaram-se em território nacional, cerca de 150 festivais, todavia nos EUA registaram-se “apenas” cerca de 70 festivais (Festivais de relevo, pois não temos acesso a informação pormenorizada em relação a festivais de pequena dimensão). Tendo em conta estes dados, decidi entreter-me e fazer uns cálculos, e cheguei á conclusão que em Portugal existe um festival por cada 70.000 pessoas, e nos EUA (tendo em conta o numero apresentado anteriormente),existe um festival por cada 4,5 milhões de pessoas.

Alguém me consegue ajudar a compreender isto? Sim claro, podemos dizer e com razão que os festivais americanos têm uma lotação muito maior, mas isso leva-me a responder que eles têm mais 300 milhões de pessoas do que nós…. Porque será então que existe esta enormidão de festivais em Portugal, país esse que atravessa uma grave crise económica e financeira em comparação com a maior potência mundial? Talvez, Jorge Jesus, treinador do Sport Lisboa e Benfica respondesse com as sábias palavras de que o Português é um visionário, que está sempre um passo á frente dos outros, uma pessoa com menos estudos e conhecimento da realidade diria que a culpa é do Sócrates, eu preferia acreditar que é para enriquecer a cultura no nosso país, para melhorar a economia portuguesa, para colocar o nome de Portugal em todos os cantos do mundo. Mas, infelizmente não consigo acreditar.

Na minha perspetiva, sendo que essa vale o que vale, estão a utilizar a música como um negócio, uma mina de ouro. Portugal durante anos e anos, viveu “orgulhosamente só”, desconhecendo todas as realidades além-fronteiras, desconhecendo realidades de países com níveis de desenvolvimento não só social, económico como cultural muito mais avançados. Por cá ficávamos com o nosso Fado, de que tanto e bem nos orgulhamos e com bandas de rock que vieram revolucionar o mundo da música em Portugal inspirando-se em bandas que faziam sucesso nos outros países.Com o avançar dos anos, o cair de regimes, a mudança de mentalidades, Portugal abriu as portas ao mundo, não sendo essa abertura tão longínqua quanto isso.

Passámos a ser mais tolerantes com o que vinha de fora, a refinar a nossa opinião, a interessarmo-nos pelo ”fora de vulgar”, a desenvolver os nossos gostos, a apreciar outras realidades, e toda esta mudança radical ocorreu num espaço de 40 anos. Será isso muito para mudarmos do 0 ao 80? Mudarmos de um país paupérrimo culturalmente para um país de referência em termos culturais? A resposta é simples, é o mesmo que um bebé aprender a correr antes de saltar. Esta mudança de realidade tinha que acontecer, talvez não de forma tão brusca, mas quem lucrou com a loucura que se criou numa sociedade que tinha estado fechada durante tanto tempo? Os grandes mecenas do país. Há cerca de duas décadas para cá que os festivais de Verão se tornaram um negócio extremamente lucrativo, sendo considerado para as pessoas quase como um bem essencial, como os bens alimentares, ou a habitação, podem fazer esforços o ano inteiro, mas chegando a altura dos festivais lá estão as pessoas a pagar para ver os seus ídolos a atuar, desfrutando de momentos únicos.

As grandes marcas, as grandes empresas nacionais, ao aperceberem-se disso, investem nesses festivais esperando retornos elevadíssimos, apenas pensando na parte monetária e esquecendo a parte qualitativa musicalmente falando, bastando trazer o que está na moda, para a aderência ser imediata! Será que existe melhor negócio que este atualmente em Portugal? Sinceramente duvido. Eu pessoalmente adoro festivais e gosto que exista oferta no nosso país de forma a ver artistas que outrora pensaria ver no meu país, mas é triste começar a ver aquilo que eu adoro, começar a ser mecanizado, perdendo toda a magia que tinha antigamente. Tal como conseguimos fazer uma revolução cultural, depois de termos estado tantos anos “fechados”, também conseguiremos que não retirem a magia dos festivais.

Hasta,

Texto: João Rodrigo.

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