Noname “deixa-nos entrar no seu mundo e contagia-nos com a sua tranquilidade” por: Fábio Lopes

É impossível não reparar no movimento que se está a passar em Chicago. A cidade é conhecida pelos seus problemas de criminalidade e exclusão social mas, recentemente, têm surgido artistas com imenso talento que são originários deste ambiente problemático.

No mundo do Hip Hop, conseguimos identificar a importância da cidade para o movimento. Kanye West é a principal referência musical da cidade mas não é a única. Common e Lupe Fiasco também estão listados como “clássicos” e há toda uma nova geração que está a deixar a sua marca não só no Hip Hop, como em toda a música em geral. Estou a falar de Mick Jenkins, Joey Purp, Vic Mensa, Chance The Rapper e, agora, Noname. Todos estes nomes “explodiram” nos últimos 3 anos e através dos seus trabalhos conquistaram não só o país como todo mundo.

Há uns meses, enquanto estava no Pitchfork Music Festival Paris tive oportunidade de trocar uns dedos de conversa com Joey Purp que afirmou que estava farto de ver Chicago catalogada como “problemática”, como se não houvesse mais nada na cidade, o próprio, indicou-me uma série de nomes de artistas locais que, para si, brilharão no futuro. Noname estava nessa tal lista e não era uma desconhecida, já a tinha ouvido em participações especiais de temas com Chance The Rapper, Mick Jenkins e Donnie Trumpet & The Social Experiment, mas, como sempre, ouvi uns temas perdidos no YouTube, captou-me a atenção e esperei por um trabalho mais “sólido”. O trabalho já tinha saído, aqui o Fábio é que não tinha ouvido (não me julguem, há 10 milhões de discos a saírem todas as sextas, há uns que escapam). Até que neste fim de semana, a minha colega Joana Martins “obrigou-me” a ouvir “Telephone”, EP de estreia de Noname.

“Telephone” é daqueles trabalhos que passam rápido. É composto por 10 faixas onde a jovem de 25 anos deixa-nos entrar no seu mundo e contagia-nos com a sua tranquilidade e esperança por um mundo melhor.

O EP começa com “Yesterday”, um dos meus temas favoritos de todo o trabalho, onde a artista fala sobre a morte da sua avó e como é que ela percebeu que a fama e o dinheiro não são as coisas mais importantes da vida. Vou destacar também “Diddy Bop”, tema que conta com participação especial de Raury e faz-nos ficar introspectivos, pensar na infância e em todos os erros que fizemos que nos tornaram na pessoa que somos hoje. E a genialidade presente em “All I Need”, um tema amoroso onde Noname fala sobre tudo o que procura na sua cara metade? Aqui há referências a Alice No País das Maravilhas, a “Umi Says” de Mos Def (que por acaso é só uma das minhas músicas preferidas) e a artista ainda revela que deixou as drogas e tudo o que procura é o verdadeiro amor. Será que o verdadeiro amor que Noname fala é o que está descrito em “Freedom”? Acho que nem a artista sabe, transformou um interlúdio e ligou-o a um tema sobre confusões e percepções – LINDO. A vida continua, Noname sabe disso e apresenta-nos a seguir “Casket Pretty”, um tema que falar sobre a brutalidade policial não só na cidade, como no país inteiro, a artista tem medo do futuro dos seus amigos mas o melhor de tudo é que todo este assunto pesado é nos trazido numa voz doce e tranquila e é isso que nos faz apaixonar pela faixa. Já que estamos em assuntos pesados e vozes tranquilas, viajamos até à faixa 9, “Bye Bye Baby”, penúltima faixa do disco onde Noname fala sobre o aborto, num primeiro verso fala de uma perspectiva maternal e no segundo verso fala de uma perspectiva do bébé, um tema forte, não há muito para falar dele, oiçam e tirem conclusões. O EP termina com “Shadow Man”, uma faixa que me quase fez chorar na primeira vez que a ouvi (quando a Joana colocou-a na Playlist da Semana) não só porque todo o tema tem uma onda triste que espelha a realidade, em geral, como me identifico bastante no que é dito. A música é sobre a morte, todos os intervenientes no tema são jovens pretos, a tentarem sobressair neste mundo e a explicarem que amanhã tudo isso pode acabar.

E assim acaba “Telephone”, um EP importante, não só para todos os jovens presentes, em Chicago, como no mundo inteiro. É um trabalho discográfico que não chegará aos tops (mesmo para mim foi difícil ouvi-lo) isto porque não podemos associá-lo à realidade do Hip Hop, apesar do género ser claramente Hip Hop, o conteúdo está num nível acima de tudo o que a maioria dos artistas têm falado, logo não chegará ao main-stream.

“Obrigado por teres partilhado a tua experiência connosco Noname, foi um prazer ouvir-te”.

Quem me segue no Twitter, sabe que eu tornei-me contra “críticas a álbuns”, não vou falar sobre isto, é assunto que dava para mais 900 palavras. Esta é capaz de ser a minha primeira e última deste ano, no entanto, senti que tinha mesmo a necessidade de partilhar umas palavras sobre o que eu senti ao ouvir este trabalho discográfico, não o vou classificar porque seria muito perto do 10 mas é a minha opinião e vale o que vale. Oiçam música e se gostarem, partilhem com as vossas pessoas mais próximas. A música é para ser ouvida. ADEUS.

Ouve “Telephone” em:

https://open.spotify.com/album/18Scpsg5OV1iYNtSaCsjwz

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