NOS Primavera Sound 2019: estamos numa bolha onde tudo é feliz!

Texto: Joana Martins
Fotografias: Inês Machado

NOS Primavera Sound 2019

Durante todo o dia o céu negro tinha assombrado a cidade e a esperança de ter um Primavera sem chuva caiu por terra. Talvez não fosse Primavera sem chuva. O parque da cidade mantinha-se quase igual aos anos anteriores e as grandes letras rotativas por baixo das nuvens escuras anunciavam a nossa chegada a mais uma edição.

A edição de 2019 abriu com um dos nomes da música nacional mais importantes dos últimos dois anos: Dino D’Santiago. 

O recinto ainda estava meio vazio. Espalhado pela relva, o público não era vasto.  Aqui e ali um passo de dança caía dos corpos que ali estavam. Mas Dino soube fazer a festa e a sua energia era contagiante. 

Por entre músicas e entre nuvens Dino trouxe o sol, e o palco Super Bock foi inundado por Mundu Nôbu. Em português e criolo Dino D’Santiago fala a língua da música e os ritmos e o espetáculo fazem-nos querer dançar. 

Men I Trust

Seguiu-se Men I Trust. A banda canadiana abriu com “Tailwhip” e descontraidamente levou-nos de canção em canção. Mas foi Miya Folick quem mais me surpreendeu neste dia. A energia dela e do público era de puro amor. Miya é sincera no seu espetáculo, assim como o é nas suas letras. Olha o público nos olhos e convida-o a ser feliz ao som da sua música. Por todo o lado, pessoas dançavam livremente, sorriam, cantavam, beijavam e não havia mais nada. Uma bolha de felicidade que reapareceu em Solange.

Antes de Solange ainda houve tempo para MorMor e Tommy Cash. O indie pop calmo de MorMor e a sua calma em palco contrastaram com o hip hop de Tommy Cash e a sua energia irreverente. Para quem como eu, contactou pela primeira vez com Tommy ali, o choque é natural. Entre imagens estranhas de mulheres nuas, porcos e pornografia, o cantor da Estónia ia cantando PUSSY MONEY WEED, HORSE B4 PORSCHE, LITTLE MOLY, e outras músicas. Parte do público estava confuso, a restante parte estava a delirar. Não há intermédio quando se ouve Tommy Cash, ou se gosta do cantor de sotaque arranhado ou se detesta, mas a sua energia é inegável e foi o boost ideal para Solange.

A ânsia para ver Solange acumulava-se no corpo. Até ao momento de ela entrar há sempre a sensação que é um mito, que de facto ela não existe e que não é possível que iremos respirar o mesmo ar que ela.

As luzes acenderam-se. Um cenário arquitetónico, estético revelou-se. A banda e dançarinas entraram, numa sincronização perfeita. Ela entrou em último.

“Down With the Clique” começa a tocar. As danças suaves vão sempre acompanhando cada nota.

Seguiram-se músicas como “Way to the Show”, “Mad”, e de repente vem a “F.U.B.U”. Solange aproximou-se do público e cantou para quem era a música, foi à barreira e pegou na mão dos jovens negros que a viam ali. Era para eles. Um grande momento do concerto.

“Dreams”, “Almeda”, e “Cranes In the Sky” fizeram-se ouvir no parque da cidade. A cada música, uma dança, um espetáculo diferente. Tudo pensado ao pormenor, desde os movimentos da banda, das cantoras que a acompanhavam, aos fatos e danças dos dançarinos. Nada é deixado ao acaso e isso faz-nos sentir especiais. “Cranes in the Sky” trouxe o baloiçar de corpos devagarinho e letras vagarosas na boca de todos.

NOS Primavera Sound 2019

Pediu-nos para dançar e nós obedecemos. A Solange diz, o povo faz.

Mas foi em “Don’t Touch My Hair” o clímax do concerto. A música trouxe danças, cabelos flutuantes e chuva que pareceu quase obra divina. De repente estamos a dançar à chuva com o nosso grupo de amigos a ouvir Solange, e somos felizes, e parece tudo irreal, tudo um sonho demasiado bom para ser realidade. Solange sara feridas e dá esperança. É o colo que precisávamos no final da noite, e na vida.  

O segundo dia começou com a Água de Coco de ProfJam e um fim de tarde solarengo, contrastante com o dia anterior. Aldous Harding seguiu-se. A cantora da Nova Zelândia relaxou quem ali estava e entre o seu folk suave foi entornando o tempo. 

Com cancelamentos de última hora, digo com toda a certeza, que foi J Balvin que salvou a noite.  O nome mais criticado nas redes sociais, provou que independentemente de se gostar ou não de Reggaeton, dança é língua universal e recomenda-se. Era difícil encontrar alguém de braços cruzados e chateado com o espetáculo. Em volta toda a gente dançava e gritava as letras. Músicas como “Reggaeton”, “Con Altura” e “I like it like that”, foram as mais bem recebidas da noite. Com dançarinos em fatos engraçados, imagens coloridas e divertidas de fundo e uma festa em palco, J Balvin tornou a provar o porquê de o Reggaeton ter o sucesso que tem pelo mundo. J Balvin relembrou-nos que a dança não tem elitismos, e que nos faz sempre sentir bem. 

J Balvin

Branko veio depois e NOSSO encheu o palco Super Bock com a dança que ainda não tinha abandonado os corpos daqueles que ali o viam. Com o seu mais recente álbum, Branko soube guiar-nos da praia com Mallu Magalhães, até ritmos contagiantes de Sango e Dino D’Santiago. Do início ao fim uma sensação de felicidade, os olhos fechados e a cabeça para trás.

Frente à difícil decisão de escolher entre James Blake e JPEGMAFIA, acabei por escolher o primeiro, e como sempre James Blake não dececionou. A voz cristalina que leva sempre ao silêncio do público, parece ecoar para dentro de nós. Acalmou-nos e deixou-nos andar descalços pelo parque. De “Barefoot in the Park”, a “Mile High”, James Blake foi a bonança depois de uma noite agitada, o calmante necessário.

NOS Primavera Sound 2019

O último dia chegou com nuvens, mas sem sinal de chuva. O último dia traz sempre um sabor agridoce de sentir a felicidade a escapar por entre os dedos à medida que o dia avança e o fim está perto. Mas O Terno ajudou a esquecer. Na voz do calmo e sereno Tim Bernardes, O Terno foi sol. Aqueceu toda a gente com as músicas do seu novo álbum Atrás/Além, assim como com músicas já acarinhas como “Volta”. Ouvir a voz de Tim ao vivo, tão límpida como em álbum, dá sempre nó na barriga e garganta, faz sentir tudo de uma vez, cada palavra e só não se chora porque o sol brilha sobre o parque e a vida é boa. A língua portuguesa é linda e os brasileiros sabem cantá-la como ninguém. 

Minutos depois o palco mudou. A calma de O Terno foi substituída pela boa insubordinação de Viagra Boys. Cumprimentaram o público com “Hello Barcelona”, mas ninguém ali estava chateado. As músicas foram cantadas entre goles na vodka que Sebastian Murphy mantinha no palco, perto de si. A cada música uma surpresa. Ora tirava a t-shirt, ora cantava no chão, ora cambaleava pelo palco. O público gostava e sorria com a postura de Sebastian. O comportamento e sonoridade eram contrastantes com a banda anterior. Foi um bom concerto, mas é sempre desconcertante ver a maravilha de um público face à intoxicação de alguém pelo entretenimento que isso nos garante.

Jorge Ben Jor

O público começava a amontoar-se em frente ao palco para Jorge Ben Jor. Sentados na relva, esperavam a lenda da música brasileira. “Por causa de você menina”, “País Tropical”, “Take it Easy My Brother Charles” e “Mas Que Nada” encantaram todos os que ali estavam. O sol brilhava, a gente sambava e era feliz. De todos os concertos a que já fui, não há nenhum com melhor ambiente do que os de artistas brasileiros. A atmosfera é outra. É de amor, é de dança, é de sol, é de alegria. Como se todos os problemas que a vida tem ali não existissem, estamos numa bolha onde tudo é feliz porque Jorge Ben Jor está a cantar e nós a dançar e o sol a brilhar e a vida naquele preciso momento é boa. 

Dos três dias, o concerto que atraiu mais pessoas, foi sem dúvida o de Rosalía. A cantora de 25 anos apresentou-se em palco acompanha por cantoras de flamenco e  El Guincho. Atrás o ecrã ia mudando conforme a música, e uma plataforma encostava no fundo onde ela dançou ao longo do concerto.

“PIENSO EM TU MIRÁ” foi a primeira música. Por entre danças recheadas de flamenco, moderno, com dançarinas atrás, o nosso olhar nunca deslocava de Rosalia. Ela é o centro do palco. “Barefoot in the Park”, “QUE NO SALGA LA LUNA” foram cantados e recebidos a plenos pulmões pelo público, mas antes ainda “Catalina”. Cantada acappella, o público calou-se e a voz de Rosalía ecoou até ao cimo da colina. Carrega o flamenco na voz e despida de sintetizadores, e acompanhamentos, isso é ainda mais evidente.  

Seguiram-se ainda “Con Altura”, “Brillo”, “Aute Cuture”, “DI MI NOMBRE”, “BAGDAD” e finalmente “MALAMENTE”.

Rosalía

A cada música uma coreografia e no fim um “obrigada”, na língua que diz achar tão bonita. Vivemos numa época prolifera de fenómenos como Rosalía, em que a tradição se mistura com o moderno e se expande, por cada vez termos um mundo aberto ao que não é em inglês e ainda bem. Ver Rosalía faz arrepiar, pela voz e pela maneira como ela encara o espetáculo e interpreta cada música. Ver Rosalía deixa-nos agradecidos por vivermos na época em que ela existe e cresce.

A despedida foi dada por Erykah Badu. Com um atraso de meia hora, a diva de R&B abençoou-nos com a sua presença. Assim como com Solange, estar na presença de Erykah parece surreal. Adornada como de costume, o soul veio até à relva, sempre suave, como assim deve ser e descansou-nos dos últimos 3 dias. A música parece ser tão natural para Badu como respirar e todas as músicas intemporais. Ouvíamos em 2019, mas podíamos ouvir nos anos 50 numa cave escura ao piano, com o trompete e saxofone sempre a acompanhar. Desde o seu mais recente trabalho On & On até aos clássicos de sempre como “Apletree”, Erykah foi a despedida perfeita para mais uma edição do festival

O NOS Primavera Sound regressa em 2020, de 11 a 13 de Junho, no parque da cidade como de costume.

NOS Primavera Sound 2019

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