
Quando se entra um festival pela primeira vez há sempre em nós um nervosismo do que por detrás da entrada se esconde. Este nervosismo aumenta se decidirmos, por vontade própria, ir “às cegas” em relação às bandas que irão atuar. Assim o fiz. Decidi ir às escuras para o festival e experienciar pela primeira vez o som das bandas ali.
Assim que entramos, o Rodellus é simpático. Os CDs pendurados suscitam a curiosidade de todos os que entram, e torna-se difícil não os olhar e perceber do que se tratam ou se em tempos tivemos os mesmos. Desde logo o Rodellus cria uma ligação com todos os seus participantes, uma empatia é logo sentida por, tanto nós como o festival em que acabámos de entrar, partilharmos o mesmo NBA Live.
As luzes penduradas por todo o lado, os sinais para os palcos feitos à mão e o graffiti lindíssimo mostram o amor deste festival, o trabalho que todos aqueles que o organizaram tiveram.
É raro hoje vermos um festival que tenha tanto carinho, é raro hoje vermos alguém perder tempo a pintar um sinal e isso faz-nos sentir queridos ali, faz-nos sentir que foi tudo feito com amor e foi tudo feito para nós.
O primeiro dia foi aquecimento para o que ainda se avizinhava, e que rico aquecimento! Com um ambiente bastante familiar fizeram-se ouvir os This Penguin Can Fly, 800 Gondomar, Sun Mammuth, Fugly, Quelle Dead Gazelle e Nambi Pambi DJ Set. A sensação de estar no meio do público e saber que aquilo que se vai apresentar ali perante nós é tudo novo, é tanto estranho e um pouco assustador como muito bom. Eu gosto de conhecer bandas indo aos seus concertos. Eu gosto de sentir a música pela primeira vez e como o meu corpo reage à mesma. No entanto, ao mesmo tempo, parece que somos constantemente observados por algum ser que nos diz: “Estas pessoas aqui todas sabem menos tu”. E se para muitos isso é mau, para mim é bom, porque posso viver algo que muita gente ali não pode: experienciar pela primeira vez uma banda e esquecer-me de tudo. Não importa se a banda é muito famosa e se é quase senso comum saber as letras das suas músicas, o que interessa é que vocês quando estão lá, estejam lá. Oiçam, sintam e deixem que a música vos comova ou vos irrite ou não tenha qualquer efeito, mas estejam lá e sintam tudo. Não tem mal nenhum ir para conhecer, independentemente se estão num concerto a solo ou num festival.
Para mim, a destacar nesta noite os 800 Gondomar, que não só encheram o acolhedor recinto de ritmos de rock português, como de simpatia e boa disposição, com até alguns fãs da banda a fazerem pequenos moches. Destacar ainda os Fugly, os meus favoritos da noite e um dos favoritos do festival, uma banda portuguesa com ritmos de indie pop que deram vontade de bater o pé e dançar. Cheios de simpatia, levaram-me a viajar para Manchester outra vez e imaginá-los a tocar num pub como tantas outras bandas que por lá vi. Na minha opinião, uma banda que tem imenso potencial para crescer para além de Portugal.
Cheguei ao recinto no segundo dia com noite a cair no campo e convencida de que já não seria possível ainda ver os Solar Corona, mas o atraso do dia deu-me a oportunidade de ver a banda instrumental de Barcelos a arrasar com os festivaleiros com uma sonoridade que fazia lembrar Muse e um pouco os The Who. No entanto, os grandes heróis desta noite foram os islandeses The Vintage Caravan, o único grupo do festival que não era português. Com uma energia assombrosa, mesmo os que não conheciam a banda não conseguiam ficar parados. A banda que no ano passado atuou no Sonic Blast em Viana do Castelo mostrou aqui ser enorme. Não só atraiu toda a gente para o palco como pôs toda a gente a dançar. Com o comboio para apanhar dei a noite por encerrada, cheia de adrenalina.
O último dia trouxe céu nublado a Ruilhe e temperaturas mais baixas do que nos restantes dias. Se nos outros dias o rock tinha sido proeminente, neste dia ritmos calmos e solarengos encheram o campo e confortaram todos os que tinham de dizer adeus agora. Ganso, Cave Story e Savanna foram os que para mim mais se destacaram nesta noite e também no festival. Ganso, muito bem-dispostos e sempre simpáticos cantaram “Grilo do Nilo”, agradeceram os croquetes do senhor Hernâni da cozinha e ainda tiveram tempo de fazer um improviso sobre o Rodellus e a sua beleza. Trouxeram um ótimo final de tarde e encheram o recinto de felicidade. Cave Story que lhes seguiram, com ritmos mais roqueiros, chegaram um pouco tímidos, mas rapidamente conquistaram o público. Entre outras, a banda tocou músicas tanto do seu ultimo EP “Garden Exit” saído do forno em Abril deste ano, como de outros, destacando-se a “Southern Hype” e a “Fantasy Football”.
Por último, os Savanna tornaram a mergulhar o recinto em ritmos mais calmos e psicadélicos que não só acalmaram como abraçaram todos os que ali estavam. Um confortante adeus para aquela que foi uma excelente segunda edição.
O Rodellus prova como é possível fazer um festival modesto, sem quaisquer pretensões, aproveitando o que a “terra” dá de melhor. O Rodellus é uma lufada de ar fresco num verão recheado de festivais com demasiadas distrações. Quem for ao Rodellus não vai encontrar brindes, não vai encontrar rodas gigantes, mas vai encontrar um bonito campo para sentar, boa bebida, boa comida para acompanhar e muito boa música. O Rodellus é a prova que a música portuguesa está numa fase excelente e que precisa de ser cada vez mais ouvida. Agora, que venha mais um!
Texto: Joana Martins;
Fotos: Rodellus;
